Eu marquei com o Rodrigo num local para a gente poder conversar. Era final de tarde, o sol já baixo, tingindo tudo de laranja suave. Escolhi um lugar, longe dos olhares curiosos. Ele apareceu e eu estava nervosa, não podia enrolar e fui direto ao assunto.
— Rodrigo… preciso te contar uma coisa. E quero que você ouça tudo antes de falar qualquer coisa.
Ele assentiu devagar, o olhar fixo no meu. Não havia julgamento ali, só uma paciência que me deixava ainda mais nervosa.
Falei tudo. Sem filtro. Contei que o Diego tinha me feito aquela proposta absurda. Que ele queria assistir a gente transando. Que jurou não encostar em mim, não interferir, ficar quieto no canto como espectador.
Contei que eu topei. Mas a idiota em mim ainda acreditava que ver aquilo ia mexer com ele de verdade, ia fazer ele sentir ciúmes suficiente para me querer de um jeito diferente.
Enquanto eu falava, via o rosto dele mudar. A testa se franziu devagar. Os olhos se arregalaram um pouco, depois se estreitaram, como se estivesse tentando processar cada palavra. Ele não interrompeu. Só escutou. Quando terminei, o silêncio caiu pesado entre nós, quebrado apenas pelo barulho distante dos carros lá fora.
Ele respirou fundo, passou a mão pelo cabelo, olhou para o horizonte por uns segundos antes de voltar para mim.
— Como assim… ele quer ver? — perguntou baixo, a voz rouca de incredulidade.
— Só ver. Ele prometeu que fica lá, quieto. Não vai encostar. Não vai participar. — reforcei as regras novamente.
Rodrigo balançou a cabeça devagar, como se tentasse encaixar as peças.
— Rafa… isso é loucura. Você sabe disso, né?
— Sei. — Minha voz saiu mais baixa do que eu queria. — Mas eu… eu topei. E agora tô aqui te contando porque não quero mentir pra você. Nunca menti. Você sempre soube que eu sou louca por ele. Sempre soube que, no fundo, você era uma forma de cutucar ele. De provocar. E mesmo assim você ficou. Mesmo assim você me tratou bem. Me olhou como se eu importasse.
Ele me encarou por um tempo longo. Vi algo passar pelos olhos dele — uma mistura de dor, resignação e, estranhamente, ternura.
— Eu gosto de você, Rafa. De verdade. Não é só tesão. Não é só vontade de transar. Eu gosto do jeito que você ri, do jeito que você fala sem filtro, do jeito que você se entrega quando se sente segura. E sim… eu sabia que você tava usando isso pra mexer com ele. Mas achei que, com o tempo, você ia ver que eu tava aqui de verdade.
Engoli em seco. A boca seca com o golpe das palavras.
— Eu vejo. Eu vejo que você tá aqui. E eu gosto de você também. Não amo como amo ele… mas gosto. Gosto muito de você.
Ele deu um sorriso pequeno, triste.
— E mesmo assim você quer fazer isso?
— Quero. — Admiti, sentindo o peito apertar. — Porque uma parte burra de mim ainda acha que vai funcionar. Que ele vai ver, vai sentir ciúmes de verdade e… vai me querer de um jeito diferente.
Rodrigo ficou quieto mais um pouco. Depois respirou fundo, como quem toma uma decisão difícil.
— Tá bom. Eu topo.
Arregalei os olhos.
— Você topa?
— Topo. — Ele sustentou meu olhar. — Mas não porque eu acho que isso vai te fazer bem. Não porque eu acho que o Diego vai mudar. Topo porque… se é isso que você precisa pra entender de uma vez por todas quem ele é… então eu vou estar lá. Vou te dar o que você pediu. Com carinho. Com vontade. Como sempre fiz. E quando acabar… quando você perceber que ele não vai mudar… eu ainda vou estar aqui. Se você quiser.
Senti um nó na garganta. Não esperava isso. Não esperava que ele aceitasse sem brigar, sem me julgar, sem tentar me convencer do contrário. Ele só… aceitou. E ainda me ofereceu um porto seguro depois da tempestade.
Estendi a mão para ele. Ele segurou meus dedos, apertou de leve. A palma dele era quente, firme.
— Obrigada — murmurei.
Ele sorriu de novo, dessa vez com um traço de tristeza.
— Não agradece. Só… promete que, no final, você vai ser honesta consigo mesma. Sobre o que você sentiu. Sobre o que você quer de verdade.
Prometi. Mesmo sabendo, lá no fundo, que talvez eu não tivesse coragem de cumprir.